Retrospectiva 2015

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Findo o natal, já começo em retrospectiva de mim com os planos de novas 366 páginas de diário (2016 é bissexto).
Que a gente precisa dessas transições simbólicas, que se o sentimento de recomeço não puder valer de algo tátil, que valha em significâncias. Já é bastante.

2015 foi um ano ruim pros Direitos Humanos. Foi um ano politicamente (jogado no) lixo – eu mesma fiquei daqui da minha pequenidade acadêmica com muitas tensões sinceras, preocupações constitucionais e democráticas legítimas, que muito ainda em risco.

Mas aí voltei pra mim. Que o mundo a gente muda, mas tem que cuidar de se estar com força e sã. Barbaridade sempre tem. Lindo é procurar esperança.

Teve muito ódio na internet e eu mesma cheguei a experimentar pouca gentileza aqui fora. E eu chorei porque eu choro.
Mas também teve uma linha do tempo cheia de grávidas e bebês nascendo, com tanta gente lutando pelo direito de parir sem intervenção médica desnecessária. Parir também é ato político, li dia desses e não posso discordar. E parir também é acreditar que as coisas vão dar certo e que o mundo é bom, porque tem vida nova chegando.

Teve muita mulher sofrendo machismo em todas as formas. Mas teve também muita mulher compreendendo que ser feminista é ter as diferenças respeitadas pra ser igual.

Teve muito bichinho sofrendo maus tratos. Mas meu gato nunca teve tanto amor. Pra ele (e pra alguns mais que consegui dar uma força) 2015 foi bom.

Teve professor e teve aluno apanhando do Estado – metafórica e literalmente. Mas teve muita consciência tomada no caminho que direito não se ganha, se conquista.

Eu noivei e estou com casamento pronto pra 2016 com o melhor homem do mundo, que me ama e me empodera todos os dias. Que me permite ser e que me apoia na vida. Nunca amei tanto. Nunca fui tão amada.

Aprendi a selecionar melhor minhas batalhas, assim aceitei melhor minha história e aprendi a me perdoar. Se perdoar é muito importante. Perdoar os outros também.

Meus pais são ótimos. E são humanos. Como eu. E minha irmã é a mais parceria.

Meus amigos são todos excepcionais: talentosos, inteligentes e espirituosos.

Profissionalmente houve pedras. Mas quando não há, afinal?! O carinho e o apoio dos alunos mostram o reconhecimento e que algo de bom eu fiz (lindo mesmo é ser agradecida em trabalhos mesmo sem estar vinculada). Afinal 2015 já anunciou boas novas acadêmicas, e 2016 me recebe mestranda (enfim).

Olha, 2015 que me perdoe o bom agouro, mas nem com toda a cara de mau que ele me fez adiantou.
Eu nunca fui tão feliz.

(Mas 2016, espero mais de você. Venha e venha logo, com esperanças mais fáceis de achar.)

Da nossa ímpar cultura democrática

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Parece que ficou mais ou menos assim a treta, de acordo com minha rolagem da timeline resumindo o dia:

O Cunha se viu acuado com o peso das denúncias contra si.
A oposição do time dos tucanos achou chato também, que já rolava juras e carinhos, chamou ele de canto e disse “seguinte, a gente tem que romper, não é você, sou eu e essa nova postura que pega bem na imprensa amiga que é se dizer contra a corrupção e talz. Vamos terminar, devolve a chave e as cartas… mas continuamos mandando nude pelo whats”; e assim fizeram. Terminaram, mas continuaram amigos.

Aí o Cunha, que se preocupa bastante com a implosão do dele nesse altura (e a gente sabe que tem uma turma lá colega dele que se importa bastante com fiofó alheio), sem ligar muito se o custo de salvar o seu é a implosão institucional da democracia, resolveu dar uma de Simba e dizer “voto popular? eu rio na cara do voto popular! Vou tocar esse impeachment contra a única sujeita que não foi diretamente citada em esquema de corrupção com um fundamento jurídico periclitante pra mostrar que o meu é maior, mas vou me resguardar que a oposição tá muito amante e pouco esposa.” Chamou a oposição pra um remember, falou que negaria o juízo de admissibilidade, mas já explicou o jeitinho que com uma cuspidinha de boa vontade supriria o despacho.
Supremo veio e falou liminarmente “nãnã, não é assim que brinca de democracia, resto dos poderes, vocês se comportem”. E tirou a bola do campo e levou pra casa.
Cunha não confia na oposição que lhe deu a mão e encantou pelo fetichismo – do poder, o do Dussel, que imaginar tucanos de cinta-liga com chicote é o fim, até pra esse post – mas se for pra ele cair, já deixou claro que o efeito é dominó e ele é mais Scar amigo das hienas, apesar de citar o Simba.

E a presidenta, que nessa altura é pro forma, está como esse parágrafo do texto: isolada e sem fazer sentido.

Sobre as (Bizarras) Manifestações de Carnaval da Classe Média Ideológica

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Imagino que deva ser muito difícil pra um sujeito como o Aécio Neves, que sempre teve tudo o que quis quando quis, boa pinta, pegador de modelos e atrizes globais, simpático e zuêro, (que até casou pra ser presidente), aceitar que perdeu as eleições em outubro do ano passado pra uma sujeita como a Dilma, com o carisma de uma bolha de sabão.
Mas perdeu. Perdeu porque mesmo o ódio ao PT – que só cresce e se alastra e se irracionaliza cada vez mais – não abona os tucanos ou o currículo dele próprio – enquanto sujeito e enquanto tucano. Em resumo: nem a ojeriza generalizada ao PT faz o Aécio ser um oponente de sucesso – por ele ou pelo partido ou pelos dois. Todo mundo tem muita sujeira no tapete e talvez ele não seja líder.
E esse mimimi todo só mostra que não sabe brincar de democracia, que não aceita a urna, e que fica muito brabinho quando não dá pra pegar a bola de volta.

Meu voto não é segredo pra ninguém, e meu posicionamento político é muito bem colocado à esquerda desde sempre, o que também não é segredo pra ninguém. Eu tenho um lado. Não sou imparcial. Isso quer dizer que não estou feliz com o governo da companheira Dilma, nem toda a militância à esquerda está, que ajudou – e muito – a elegê-la no segundo turno: porque lá, ruim com ela, pior com o projeto dessa neo-direita-esvaziada-de-discurso-de-rede-social-com-memória-de-caramujo.
O que também me faz pensar que a direita (não chamo de oposição que as esquerdas mais autênticas também se opõem) tupiniquim reclama de barriga cheia (bem como bate panela), que Dilma tem administrado como se assim fosse. Isso mostra que é por birra, não por consciência política.

A crise é política. E por óbvio econômica. Mas esta enquanto um movimento global. Que aquela – local – só agrava.

Eu, daqui que só observo, continuo achando um descalabro essas manifestações cada vez mais minguadas (sério, tá feio) pedindo intervenção militar, impeachment, dizendo que aqui não é Cuba, pedindo morte de pessoas e assim vai nessa perigosa curva à direita. Não pactuo com isso – e se você que lê concorda ou discorda, tudo bem, eu não te odeio por isso nem vou deixar de te tratar bem.
Os fascistas estão sem medo, violentos e gritando, e se misturam a uma horda de insatisfeitos em geral.

E eu particularmente estou aqui. Insatisfeita. Mas me recusando a fazer parte desse flash mob amarelo televisionado de indignação seletiva e birrenta de quem não sabe perder.

Da indignação seletiva das “pessoas de bem” e da “família cristã”

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“Religião é como pênis. É ok ter uma; é ok ter orgulho dela; no entanto não exponha isso em público; não coloque nas crianças; não escreva leis com isso ou não pense com isso”

São tantas aspas que a gente até se perde, e que me veio por mensagem e só agora fui utilizar-me das redes sociais com mais cuidado pra perceber que o (ainda) assunto do momento é o debate entre fiscal de fiofó alheio e manifestação da liberdade de expressão da minoria – atentem que as adjetivações foram escolhidas por uma razão, e desde já deixam clara minha opinião sobre.
Já tem tempo que parei de “achar” tanto na internet, menos por ter deixado aqui de matutar e me espantar do que por cansaço e falta de civilidade dos interlocutores. Internet – predominantemente esta rede social que faço por meio – virou espaço pra disseminação de ódio gratuito (ódio este que percebo estar saindo dos espaços “virtuais” e se tornando bem reais).
Parto de premissas que historicamente se comprovam: mulheres, gays, trans e toda sorte de expressão da sexualidade que não seja “homem hétero” preferencialmente “branco”, são minorias. Cada um com suas lutas, mas ainda, minorias, que com muito custo – e é mesmo, que enquanto a motivação da violência e do discurso de ódio for dentro da esfera privada de exercício da sexualidade/liberdades do outro que só quer ser, e enquanto continuar havendo morte por isso, o custo é alto.
Faço parte da minoria “mulher”. E sinto quase que diariamente o peso que é ser mulher numa cultura do patriarcado. E eu faço parte da minoria que sofre relativamente menos, se há como medir sofrimento (por razões desnecessárias de pontuar, que o texto é meu, mas não sobre mim).
Esses sujeitos que politizaram direito tão fundamental e privado que é a sexualidade de alguém, e têm incitado o ódio e a violência tirando as vozes antes abafadas do preconceito e dando alto-falante e reproduzindo sentimentos pouco cristãos (até onde cheguei na catequese, Jesus tinha pregado amor às putas, aos leprosos, a toda gente esgualepada que era da turma dEle) certamente encontram seus fundamentos de conveniência e se amparam de acordo com uma interpretação também de conveniência. Imagine você, homem hétero, se de repente um grupo começasse a perseguir sua vida íntima, dimensionando o problema nos termos “você fez sexo hoje? E o fiofó como vai? Você quer a moça depilada, porque a gente se movimenta aqui e a orientação bíblica é que não se depile e que o sexo seja na posição missionária (papai-mamãe), e nada de masturbação, que isso é jogar a semente fora, e se a posição for outra, isso não é familiar, e a gente precisa de uma lei que fale que não pode haver porque a gente não gosta de outro jeito então tem que ser assim, que está na bíblia senão não são bem-vindos e vão apanhar”.
É um absurdo tão grande imaginar que o Estado vai interferir nessa esfera tão íntima das nossas liberdades que quando aparecem parlamentares com esse discurso – acompanhada de tantas outras contradições que atestam nosso abismo evolucionista numa cultura de paz e de direitos humanos, e sobretudo, de aceitação do outro em sua diferença para podermos declarar uma igualdade de direitos, nem mesmo eu que estou nessa “pessoal política” de evitar debates em rede social posso não me manifestar – que quando se trata de injustiça, ficar calado é se posicionar do lado do opressor, como disse alguém gabaritado que não me recordo.
Esse absurdo de tão grande parecia apenas um episódio desse freak-show político em seara legislativa, mas aí tomou uma força, e tem invadido os espaços políticos generalizadamente, tanto que espaços de âmago democráticos estão sendo utilizados a fim de deslegitimar a própria democracia, surpreendentemente por sujeitos sobretudo evangélicos (nada contra, tenho até amigos que são*) que já foram outrora minorias e aparentemente não aprenderam nada – inverteram a condição de oprimido a opressor e Jesus que explique o tanto que estão colocando na conta do nome dEle – que até me lembro que teria avisado sobre falsos profetas, mas esse perfil é laico, não vou delongar.
Todo apoio à causa do arco-íris. Uma democracia só é plena quando @ indivídu@ pode ser plen@.

*ironia com o trocadilho “não sou homofóbico/racista, tenho até amigos que são gays/negros”

Aécio não me representa

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Quando Hitler e Mussolini sentaram no poder, o fizeram diante do apoio de uma “maioria” branca e racista que se intitulou ariana e linda que encontrou neles a força retórica do discurso de ódio. Suscitando ódio ao que consideravam o câncer do mundo (judeus, negros, progressistas em geral, homossexuais, intelectuais liberais e artistas modernistas, entre outros que não cabem aqui ser discutidos), reuniram o apoio de setores variados da sociedade e o resultado a gente sabe.
Mas os tempos eram outros, claro. O mundo era outro.
Corta pro Brasil de 2014.
Longe de mim querer comparar o candidato Aécio Neves a Hitler. Hitler tinha uma oratória bem melhor e um projeto de dominação global e extinção racial num mundo pré-bomba atômica. Estamos há quase um século de distância, cocaína ilegal, uma ONU, Direitos Humanos e democracia quase que plenamente ao menos declarada.
Aécio tem no máximo um projeto de segregação da pobreza, de segregação do diferente, de segregação da juventude aumentando o encarceramento (e consequentemente a pobreza). Porque seus correligionários precisam da pobreza (e por pobreza, inclua-se a de espírito, a miserabilidade humana que deixa de identificar o diferente enquanto gente).
Coincidentemente também tem apoio de quase totalidade dos médicos – Hitler também o tinha, que aos médicos daquele tempo era uma oportunidade ímpar: experiências com seres que não fossem gente. Eram negros, homossexuais e judeus, “não gente, mas com formação física igual”, que com gente não seria ético fazer aquilo. Caso dos médicos de hoje no Brasil é mais porque se ofenderam com a vinda de colegas de outro país, cumulado a um alegado descaso histórico com a saúde – e esqueceram de observar “descaso histórico” mais o corte de verba que o candidato deles fez no estado federado que governou e teve votação vexatória. E como crianças mimadas respondem “porque sim. Fora Dilma”.
Também não penso que um partido no poder por tanto tempo seja o melhor dos cenários. Porém também não aceito uma troca pela troca, sem fundamento racional ou quando havido fundado num “porque sim” “fora PT”. Esse tipo de discurso é inócuo e corrobora ao esvaziamento de discussões mais sérias e mesmo mais democráticas.
(Aliás: àqueles que criticam as bolsas, deveriam se informar mais [muito mais], inclusive sobre o discurso do candidato Aécio, que oscila a depender do público ouvinte entre manter e não manter.)

Minha preocupação com uma possível vitória de Aécio passa por questionamentos simples em questões delicadas e sofisticadas, que numa democracia jovem como a nossa não podem ir pra vala (aquela vala que os militares conhecem bem).

Desde as eleições indiretas pré-constituição, os militares tinham entregue as chaves pro Sarney, e falado “ajeita as coisas aí, chama o Ulysses, façam a tal da Constituição cidadã. Ah, desculpa pelo transtorno desses 20 anos. E o Herzog? Suicídio. Ninguém torturou aqui não. Abraço. Deixamos um pessoal no PFL. Eles vão mandar bastante ainda até o Fernando II (o Henrique, não o Collor) mas depois míngua e vão estar na redação da Veja.”
E foram criar seus filhos e netos, com a certeza de terem livrado o país dos comunistas.
Depois disso vocês sabem: Constituição, cai o muro, Collor, Impeachment, Itamar, fusca, Plano Real, ÉfeAgá, compra da emenda da reeleição, ÉfeAgá, Lula, bolsa-família, cotas, mensalão, Lula, Dilma e hoje.

Hoje:
– Homofóbicos declarados, da bancada evangélica financiada com dinheiro de fiel, que negam direitos civis a seres humanos e incentivam o discurso de ódio que espanca esses mesmos seres humanos pela diferença são recordistas de votos em alguns estados. Esses sujeitos hoje são maioria no Congresso. Pessoas da estirpe de Levi Fidelix, Pastor Everaldo, Silas Malafaia, Bolsonaro e Feliciano. E declaram apoio a Aécio;
– Os militares que estavam quietos e meio sumidos declaram apoio a Aécio – que chama ditadura de Revolução;
– Marina Silva (surpreendentemente reacionária, quem diria) mesmo com a assustadora guinada à direita condiciona seu apoio a Aécio: “esquece esse negócio de reduzir a maioridade penal”. Aécio cresce. E nega.

Os compromissos que o candidato tem feito são de segregação social e de ideias, de discurso de ódio. Por uma maioria opressora e uns tais valores do sujeito de bem, que ninguém sabe direito o que é. Isso pra não dizer da moral e do caráter no mínimo duvidosos: bate em mulher, tem uma dependência química mal explicada, e aquele aeroporto ainda não definido (tá com o tio ou “só” nas terras do tio?).

Diante desse cenário, com uma imprensa muito bem disposta a eleger seu candidato, vemos um mal explicado alardeado escândalo na Petrobrás explorado sob os efeitos psicológicos da notícia que vende pra classe média (que não quer ser chamada de pobre, então pensa mesmo que o discurso do rico – mas esse rico muito rico – de moralidade rasa é dela também).

Discurso de moralidade rasa é alegar uma “corrupção” que ninguém sabe bem do que se trata, sem trânsito em julgado, mal explicar o “mensalão” e cair num discurso senso-comum que não suporta meia dúzia de dados. Um candidato que não se compromete com as causas de “minoria” é por alguma razão: não se compromete com o combate do trabalho escravo como prioridade em seu governo que isso é se contradizer perante os latifundiários apoiadores de sua candidatura; seu compromisso é o de aumentar o lucro dos patrões, e diminuir direitos dos empregados (5º Simpósio Empresarial de São Paulo), deixando claro que numa hipótese de vitória, reduzir as desigualdades sociais não é definitivamente bem visto – em suma, isso quer dizer que se hoje um filho de pedreiro pode – mesmo que a duras penas – fazer medicina (um curso com que a elite se identifica), num governo Aécio só o filho de médico é quem vai ser médico, mas o do pedreiro pode sonhar em ser motorista do patrão e ganhar o resto da ceia de natal.
Um discurso como esse só convence quando as pessoas estão mesmo muito acreditadas de que são o que não são: não querem ser chamadas de eleitoras do PT porque fizeram com que eleitores do PT sejam vistos com preconceito – são feios, pretos, pobres e nordestinos.

A suposta menina dos olhos do projeto de Aécio é a pauta econômica. Nesta pauta, ele pretende trazer Armínio Fraga como líder – sim, o mesmo sujeito que entregou o país na mão do Lula com juros a 45%, desemprego recorde, e empréstimos com o FMI. A juventude de hoje não sabe o que é isso: chama-se Fundo Monetário Internacional, e é uma espécie de cafetão gringo que deixa o país de quatro por uns trocos. O Lula quitou a dívida. E parece mesmo que nada há que se preocupar com nossa economia atual, que estamos bem, obrigada – quem diz isso não sou eu, é o Paul Krugman, Nobel de Economia.

De mais a mais, enxergo sim equívocos do PT, discordo de algumas posturas e apoiadores em alianças pouco convincentes em nome da “governabilidade”, e também vejo que uma vitória da Dilma agora encontrará um Congresso conservador que vai dificultar próximos avanços legais. Mas uma mudança não pode ser “porque sim”. As alianças que Aécio está fazendo vão cobrar favores – e um sujeito que faz aliança com homofóbicos, militares assassinos, latifundiários escravagistas, bate em mulher, amigo de fomentador de discurso de ódio, tem uma mal explicada dependência química, constrói aeroporto com dinheiro público nas terras do tio, cala a imprensa de seu Estado através do Judiciário, corta verba da saúde e da educação, manifesta interesse na criminalização da juventude e na segregação do diferente… Bem… Podem trazer dois armíniosfragas (que acha que o salário mínimo é alto demais) e quatro delfinsnetos pra me convencer, mas um sujeito anti-direitos-fundamentais como esse não me representa.

Emmy 2013 – Indicados em Comédia

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Nada como as indicações do Emmy 2013 para tirar o blog do abandono e descaso. Thank you cultura de massa americanizada e enlatada que eu consumo felizinha.
À guisa de perpetuar as considerações que fiz ano passado – e notem como sou absolutamente pé-frio em previsões – mais uma vez saio por aqui opinando para os meus nove leitores.

Esta temporada estive menos presente nas atualidades televisivas dos EUA. Explico-me: abandonei os downloads excessivos e dediquei-me a passar meu tempo em frente à TV de verdade. Isso da classe-média e sua necessidade de autoafirmação pagando canais fechados, blablabla. Confesso aos senhores que isso de TV à cabo me fez voltar a ver TV, stricto sensu. Já de muito não conseguia encarar os canais nacionais de TV aberta. Não fosse uma amiga mainstream (beijo, Caci) eu sequer saberia o nome das novelas da vez. Só não me desce, não aguento mesmo ver, não tenho paciência praquele excesso de mais do mesmo, yada yada. Obviamente tem um monte de coisa ruim lá fora também. Mas essa é a vantagem das séries: tem um monte, sobre todos os gêneros, e a depender do teu gosto, você pode escolher.

Reitero que sou pé-frio porque várias séries que gostei essa temporada foram canceladas (basicamente: o canal cortou porque não deu lucro). Go On (do Matthew Perry, o Chandler de Friends) foi cancelada esse ano. E a porcaria de 2 Broke Girls continua no ar!
A FOX é a campeã em começar boas séries e cancelá-las: Apartment 23 foi ao ar ano passado e não foi renovada pra 2013 (eu gostei, achei promissora, no limite do non-sense, nada de pieguices); New Normal foi cancelada, e era um bom respiro junto com The Office – que terminou direitinho – na grade da emissora. E obviamente, isso não explica How I Met Your Mother (tá, explica). HIMYM é um explicável caso de sucesso de público e ojeriza dos críticos – os profissionais e os amadores, como eu. Digo explicável porque faz aquele humor clichê com pitada de sentimentalismo. Dá lucro mas não faz história. E isso explica porque não é indicada a porcaria nenhuma, claro.
New Normal, há que se dizer, guardava semelhanças com Modern Family. E isso não explica o insucesso da primeira, já que Modern Family de fato é ótima, cultuada (até demais) pela crítica e pelo público – talvez a melhor das comédias na ativa no que lá é canal aberto (basicamente, não está na HBO). Considerando que a FOX (e FX, perninha dela) seja um meio termo entre a corporação NBC (subdividida na Universal, Warner e Sony aqui [lá não sei como fica], com viés bem mais massificado, menos cultbacaninha, por assim dizer) e a HBO, evidentemente guardo certas mágoas. A devidamente cultuada série Arrested Development, que o NetFlix relançou unicamente online esse ano (e que está presente no rol das nomeações ao Emmy), foi cancelada sem dó nem piedade há alguns anos. Ugly FOX, ugly ugly. Tá certo também que se a FOX quiser parar com todas as séries e passar ininterruptamente só The Simpsons ninguém reclama, e é capaz de continuar ou até aumentar seu capital. Simpsons é unanimidade e nem tem como querer ser diferente. É tipo Seinfeld. Não se fala mal, sob pena de choro e ranger de dentes.
Outra série que eu gostei foi Happy Endings, aqui exibida pelo Sony. Cancelada. New Girl (FOX) é ótima e delicada, com humor elegante e sem cair em clichês óbvios. Não foi cancelada, ainda, mas não ganhou nomeação. Uma injustiça. Outra injustiça é Parks and Recreations não ser indicada na categoria melhor comédia – a Amy Poehler foi para melhor atriz, que é tipo uma indicação de consolação, decerto. Se alguém já viu sabe porquê: é inteligente, engraçada, sutil nas críticas, atual e tem a personagem Ron Swanson.

Mas vamos parar com lágrima sobre o leite derramado e bóra pras indicações principais em comédia (não vejo os demais gêneros, então não posso pitacar com “propriedade”).

MELHOR SÉRIE – COMÉDIA

30 Rock (NBC)
The Big Bang Theory (CBS)
Girls (HBO)
Louie (FX)
Modern Family (ABC)
Veep (HBO)

De todas essas, a que menos vi foi Girls. Explico: gostei dos três primeiros episódios da primeira temporada, por ter me identificado pessoalmente com a Lena Dunham – faixa etária, ambições a escritora/roteirista, numa Nova Iorque menos irreal que a de Carrie Bradshaw. Ficou aí também. A guria tem todos os méritos e blablablás, mas é ridícula no Instagram e no Twitter (lembra o Orkut? Pois é, desse naipe), não consegui sentir toda essa genialidade que falam que a moça tem, além de ter me corroído de dor de cotovelo: sou muito melhor e mais bonita, o que ajudaria nas excessivas cenas de nudez. Por mim, poderiam ter dado a vaga da indicação pra Parks and Rec’s, que é ótima e muito mais militante dentro do humor e das possibilidades do canal. E claro, se a HBO quiser me dar uma série, estamos aí.
Veep não terminei de ver essa segunda temporada, mas tem tudo pra ser a única concorrente de verdade da praticamente invicta e imbatível Modern Family. Veep tem Julia Louis-Dreyfus, que quebrou duas vezes a maldição de Seinfeld, ganhando como melhor atriz e sendo sucesso de verdade (médio, vai… Christine não foi muito além) com outras séries, e tem todo o suporte da HBO e merece o troféu.
Se eu, Manu, tivesse que escolher quem levaria, dava pra 30 Rock. Até por sentimentalismo. Amei a série (acabou esse ano), está ali no rol das séries que inovaram (claro, a partir de Seinfeld, tudo é a partir de Seinfeld, yada yada) na TV e merece por esse sentimentalismo – também pessoal, que sou fã de carteirinha da Tina Fey – fechar com chave de platina o que já fecharam com chave de ouro.
Louie é ótima. Fantástica. Mas não leva. Está na uruca das três nomeações sem levar.
The Big Bang Theory é uma série que gosto bastante, a mais vista por lá – e acho que aqui também – e trafega bem entre o clichê nérdico e as risadas reiteradas. Mas tenho sentimentos por ela como tenho com Friends: vejo, rio, acho muito legal e com piadas boas, mas nada genial, brilhante, ahmeudeus que inovadora. Mais do mesmo… uma mesma fórmula que deu certo, claro, super certo. Tem seus méritos, de fato. Mas falta algo mais pra perfeição, falta o “jenesequá”.
Modern Family é aposta certeira, e como já disse, cultuada por público e crítica e é mesmo talvez o que se tenha de melhor hoje em comédia. Se levar, é bem dado. Mas não será nenhuma novidade, visto que vem fazendo arrastão de prêmios por onde passa, justamente pelo seu mérito e auto-sapiência dos roteiristas em se manterem atuais com os temas, vanguardistas na abordagem sensível e humorada das situações familiares do dia-a-dia. Consegue que nos identifiquemos e nos coloca naquele lugar bom interno de rir de nossa própria desgraça e hipocrisia moralista. Como já observou Umberto Eco, só nos sobra o riso.

MELHOR ATOR – COMÉDIA

Alec Baldwin (30 Rock)
Jason Bateman (Arrested Development)
Louis C.K. (Louie)
Don Cheadle (House of Lies)
Matt LeBlanc (Episodes)
Jim Parsons (The Big Bang Theory)

Tenho uma regra pessoal de sempre torcer por Alec Baldwin, sem nem saber se ele merece. Ele é um sujeito genuinamente engraçado, charmoso, inteligente, e tem aquela voz de Batman e olhos de husky siberiano que fazem qualquer pedra de gelo derreter em tempo recorde.
Mas ele merece? Bem, aí entrou Jason Bateman. Compreendam a grandeza do ineditismo de retomar Arrested Development e do porquê disso: o time é exímio. Quem encabeça? Jason Bateman. Merece.
Não vi House of Lies – e parece que nem os gringos veem. Também não vi Episodes com o Matt LeBlanc – o Joey de Friends. Nem sei do que se trata. Mas se não me falha o palpite, imagino que ele esteja sendo o Joey com outro nome e de cabelos mais grisalhos. Como foi em Go On com Matthew Perry e como está sendo em Cougar Town a Courtney Cox. E sim, como foi Julia Louis-Dreyfus em The New Adventures of Old Christine. (Viu, ó, eu também quase falo mal de Seinfeld por tabela.) Por que? É quase que impossível você fazer um papel tão querido por tanto tempo e não emprestar bastante de si a ele e vice-versa. E se continua no mesmo gênero, continua sendo identificado pela referência mais famosa. Simples assim.
Jim Parsons é o Sheldon. Se levar é digno. Bem com Louis C.K. Um bom rol.
Minha torcida? Jason Bateman.

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA
Laura Dern (Enlightened)
Lena Dunham (Girls)
Edie Falco (Nurse Jackie)
Tina Fey (30 Rock)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Amy Poehler (Parks and Recreation)

Pessoalmente, senti falta de Zooey Deschanel na lista. Como de New Girl como um todo pelo Emmy. O páreo está entre Tina Fey e Julia. Esta última já levou ano passado. Se a Amy Poehler levar, também fico feliz e também é merecido. A Lena Dunham tem chance, pelo queridismo que ela gerou. As demais não conheço.
Eu dessa vez torço pela Tina Fey. Por sentimentalismo.

MELHOR ATOR COADJUVANTE – COMÉDIA

Ty Burrell (Modern Family)
Adam Driver (Girls)
Jesse Tyler Ferguson (Modern Family)
Bill Hader (Saturday Night Live)
Tony Hale (Veep)
Ed O’Neill (Modern Family)

Onde está Nick Offerman com seu Ron Swanson, América? Pecado. Injustiça. Absurdo. E Will Arnett em Arrested Development?
“Só” três indicações no elenco de Modern Family… Acho que vai ficar por aí mesmo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – COMÉDIA

Mayim Bialik (The Big Bang Theory)
Julie Bowen (Modern Family)
Anna Chlumsky (Veep)
Jane Krakowski (30 Rock)
Jane Lynch (Glee)
Sofia Vergara (Modern Family)
Merritt Wever (Nurse Jackie)

Anna Chlumsky está formidável em Veep. Você acha que não conhece a moça? Conhece sim: ela é a Vada, a loirinha linda com pai xarope de Meu Primeiro Amor, aquele filme que não é feito pra criança, porque faz a gente chorar até quando adulto. Em meu gosto pessoal, é uma briga entre a Vada e a Blossom, saca? Mayim Bialik está fantástica em TBBT!! A cena em que ela ganha a tiara do Sheldon já é épica. E talvez seja da temporada passada… confiram aí e me contem depois.
Mas tendência é ir pra Sofia Vergara. Que também tá ótima e tem todo aquele apelo ($) latino.

As demais nomeações, como já disse, não posso comentar muito, porque tenho mais o que fazer do que ficar vendo TV gringa, oras – aham… tô enganando muito depois desse prospecto…

Enfim. Veremos se dessa vez meus palpites melhoraram.

P.S.: CCC – Comedians in Cars getting Coffee, de Jerry Seinfeld, indicada a melhor web-serie. Nem sei quem são as demais pra evidenciar minha preferência e escolha e torcida, néam.

Sobre Manifestantes, Policiamento e Democracia. E Outras Coisas Também

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Peço licença.

Passei o dia observando as manifestações de todos os lados pelas redes sociais. Compartilhando opiniões, curtindo charges, essas coisas. Mas não me manifestei diretamente – não que seja preciso, também, já que minha opinião é clara a quem me conhece (e não precisa conhecer muito).

Em resumo, de um lado ficam os manifestantes. De outro, os que os chamam de baderneiros.

Fundamentos e argumentos li aos montes: “bando de maconheiro plêiba”; “estudante sem o que fazer”; “muita teoria, pouca prática”; “tudo bem se manifestar, mas quebrar as coisas já é demais”; “são só 20 centavos”; “quem sofre é a empresa”; “se você tivesse patrimônio na Paulista ia pensar diferente”; “PM’s truculentos”; “culpa do Alckmin”; “culpa do Haddad”; “PTralhas”; “Tucanalhas”… e assim foi.

Sem tomar partido, no sentido partidário, a culpa é de ambos. Ambos os partidos têm construído nosso país com erros e acertos, orientando as políticas públicas como lhe convém.

Vamos à Constituição, que é a ela que temos que recorrer. Ela é nossa bíblia aqui.

Estamos tratando de direitos e garantias fundamentais, senhores. E de um povo que literal ou metaforicamente só tem levado borrachada de quem deveria representa-lo.

Nesse momento não tem partido (necessariamente). Nesse momento tem a democracia em exercício. Na prática. O poder é do povo, afinal. E quando falamos em povo, falamos de pessoas, de gente como eu e você.

É cláusula pétrea o exercício de manifestação pacífica. “Ahhhh, mas é pacífica!” responde o incomodado. Ora… sério mesmo, que com um monte de gente na rua e mandando o policiamento cair em cima, ninguém desconfiou que alguma quebradeira ia acontecer? Santa ingenuidade…

Nossa polícia não está apta a cuidar disso. Sim. Despreparo mesmo. E a culpa não é deles – não inteiramente. Quem só vê pancada na vida só sabe dar pancada como resposta. Se teu chefe te apoia, então… “temos que proteger a família”, que família, governador? Porque tem um monte de filho e mãe e pai ali na rua…

Não se trata de vinte centavos: se trata de um aviltamento à nação, de direito de ir e vir e de um povo que só vê corrupção – e é corruptível, diga-se – e tem do Estado pouca resposta, normalmente em forma de repressão violenta. É uma nação que enfim se uniu e deixou o ativismo de sofá. É o povo mostrando que sim, é ele quem manda.

A violência do Estado está nos pedidos populares também: cadeia é pura violência. Não se iludam. Mas de repente quem está indo pra cadeia não é mais aqueles sujeitos que não nos identificamos: é gente como a gente classe média, vejam só.

Temos uma imprensa pouco colaborativa, é verdade, que faz oposição vazia, mas que hoje sofreu na pele aquilo que ela costuma pedir: violência e vingança.

Nos identificamos com o outro na medida que nos reconhecemos no outro. E me orgulha perceber que hoje a maioria (do meu facebook ao menos) se reconheceu naqueles que estão se manifestando.

“Ahhh, mas e quem paga os danos da propriedade privada, das empresas que estão ‘sofrendo’?”. Isso, meus caros, chama-se ônus.

A livre iniciativa econômica também é protegida pela nossa Constituição, e as empresas geram empregos e renda. Gosto delas também. Mas não as humanizo. Porque as empresas vão poder cobrar do poder público – Município e Estado – os danos materiais que porventura estão tendo. As empresas repassarão em suas planilhas os valores desses danos e quem as utiliza pagará – possivelmente mais que vinte centavos. “Ahhh, mas o governo não paga nunca!”. Paga. Demora, mas paga. Isso se chama processo democrático. Ademais, o governo tem subsidiado bastante as empresas, com incentivos fiscais e afins. “Ahhh, mas…” Não tem mais “mas”. Chama-se risco isso. Se você é empresário, assuma o risco.

Agora, me desculpa se não consigo desumanizar seres humanos. Não consigo tratar esses que estão sendo violentados por uma polícia despreparada como a previdência social faz: “um dedo perdido? X de aumento. Um pé? Y de aumento”. Não consigo atribuir cifras pros pedaços do corpo.

A luta que se iniciou com os estudantes é de todos. São os estudantes e acadêmicos em geral que estão em contato com as ideias e que nos lembram que democracia é mais que uma declaração constitucional. E é uma luta do trabalhador. Sim, o trabalhador assalariado, não necessariamente de você, empresário que aufere lucros com mais de três zeros depois dos três zeros. Mas, viu, empresário: a gente sabe que esse teu lucro vem da mais-valia. Você precisa desses trabalhadores. E você também precisa desses vinte centavos a menos, porque se você paga teus trabalhadores direitinho, você banca o transporte. Você paga, claro. Mas você não tem que se apertar dentro de ônibus lotado – e caro, que isso é coisa de proletário, relaxa.

Quem sofre é o povo.

E é ele que está sangrando. Literal e metaforicamente.

Amados Batistas, Ditadura e Inocentes culpados

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Verissimo tem um texto que se pergunta onde afinal estão os militares da ditadura? Por que todo esse silêncio? É um texto, se bem me recordo, datado logo após a democratização constitucional de 1988. Obviamente, o texto não aborda a herança militar política que remanesceu forte e se adaptou muito bem, obrigada, administrando da velha forma trajada de nova (você sabe, as velhas raposas congressuais, algumas já in memorian com todas as pompas e circunstâncias republicanas).

Em período eleitoral, quando alguém soltou o boato de que Dilma era terrorista, e o boato convenceu a parcela classe-média que lê Veja como Feliciano lê Bíblia, não me assustou o argumento veemente absurdo e anacrônico. Assustou-me o silêncio de alguns, porque o silêncio também diz. A então oposição, à guisa de tirar vantagem da falácia, emudeceu-se. O silêncio de conveniência fez barulho e ainda ecoa (pois ouvi ainda ontem dando aula de Direito Constitucional), e sequer Éfe Agá, um intelectual de prestígio, apareceu pra esclarecer à parcela menos abobada do eleitorado tucano que “calma, galera… a luta era legítima”.

E então ontem leio que Amado Batista, um cantor outrora queridinho das gravadoras – vendia mais que petróleo no Texas na fase áurea – diz à Marília Gabriela que, no período ditatorial recente brasileiro, levou choque e apanhou, mas não foi tortura. Foi palmadinha correcional, como se tivesse quebrado o vaso de mamãe jogando bola dentro de casa e apanhou pra aprender que vaso não se quebra. Ou que bola não se joga dentro de casa. Porque os fins justificam os meios e num raciocínio maquiavélico – provavelmente sem ter lido Maquiavel – alegou legítimo o ato, uma vez que a ação era justificável, já que a finalidade das “palmadas” era pra que ele aprendesse que com “comunista” não se brinca, que os “comunistas” queriam fazer do Brasil uma nova Cuba, veja só, e comiam criancinhas. Porque afinal, os milicos queriam mesmo era nos libertar do jugo de dividir as terras, que não podíamos deixar “vagabundo” entrar naquilo que tinham construído com suor (de muitos desses “vagabundos”, porque rico mesmo não sua), e que determinadas leituras não podiam contaminar os ideais da “revolução”.

Forçoso que eu admita que não é a primeira vez que me deparo com esse argumento. Mas pensava eu que se tratava de argumento de bastidor, um deslize na educação histórica de um ou outro, desses posicionamentos reacionários que já perdem a legitimidade com o portador em discussão de comentários do leitor, que culpa o Lula pela unha encravada e ri com “kkkk”. Mas meu pisca-alerta está aceso. Já teorizo por aqui que rir com “kkkk” seja uma mensagem subliminar pra “KKK”.

Aécio Neves, uma figura simpática e bem apanhada vista de longe, recentemente chamou o golpe militar de 1964 de “revolução”. Depois, quando alertado, corrigiu-se com um “whatever”. Porque como diz uma amiga “whatever de cu é rola”. As palavras carregam conteúdo, senador. Quando se chama um golpe de “golpe”, é porque o poder foi tomado não pelo povo, mas por uma minoria organizada e poderosa institucionalizada, interessada na manutenção do status quo. Quando se atribui a uma ação a palavra de “revolução” quer-se referir ao ato uma característica popular e de cunho libertário. Como se conduz a coisa após isso não vem ao caso agora. Evidentemente que se pode degringolar em ditadura (explica a União Soviética, por exemplo). Mas é necessário que se diferencie os ideais das ditaduras, os porquês, as causas, os reflexos.

Não se comemora a ditadura militar brasileira. Da mesma forma que não se comemora o advento do III Reich.

Explico, usando a Alemanha nazista. Vamos a uma pequena aula de história, classe.

Quando Hitler assumiu o comando alemão, transformou uma Alemanha dizimada e ofendida num lugar próspero. Chamou todos os médicos pro partido numa política higienista social, estimulou a saúde, deu escola, incentivou os esportes, sediou olimpíada, inflamou o orgulho nacional e reiterou a propaganda contra o inimigo comunista russo. Urbanizou as cidades, possibilitou emprego aos “puros” (os arianos, como se intitulou), martelou a ideia de que a miscigenação não fazia bem pro povo alemão, que eram como vírus a fim de trazer pobreza, enfeiamento e podridão. Combateu o câncer e ressuscitou o ideal grego de beleza, numa política espartana de guerra. Incentivou a utilidade das pessoas, a arte e o respeito. Obviamente, com as ressalvas adjacentes: só era bonito quem fosse loiro de olhos claros e estivesse em forma, livre de doenças. A arte era o que o partido chamava de arte. Aqueles modernistas com suas pinturas tortas e esquisitas não. Judeu era uma raça a ser exterminada, porque eles detinham o dinheiro e era uma nação sem pátria, todavia unida. Os negros não se encaixavam. Homossexuais eram câncer social. Defeitos congênitos eram autorizados desde o nascimento a ter seu fim: não podiam permitir que defeituosos se reproduzissem. Tudo o que não se encaixasse em seu ideal de beleza e saúde – em todos os aspectos, fossem culturais, sociais, médicos – deviam ser exterminados. O resultado a gente sabe: racismo, câmaras de gás, campos de trabalhos forçados, segregação, esterilização de mulheres, experiências com humanos (bem piores do que hoje fazem com cobaias animais em laboratório e que causam uma militância simplista e até inocente).

Elogiar os avanços – sim, há que se dizer que houve progresso na Alemanha nazista – conquistados nesse período é motivo de repulsa. Não se fala muito que Hitler foi inclusive eleito homem do ano pela Time, famoso semanário americano. Não se fala que Hitler, apesar dos fins, proporcionou coisas boas. Com seu carisma e discursos magnéticos, levou toda uma nação a um transe patriótico hipnótico. Certa feita li algum historiador dizer algo como “incrível como Hitler, um grande orador, capaz de conquistar as massas de forma única, não cunhou sequer uma frase de efeito”. Como assim, cara-pálida? Ele deve ter cunhado várias! Mas não pega nada bem citar em aspas uma frase de efeito e embaixo nomear o autor. Por mais correto que porventura possa se mostrar o pensamento, o portador dele não é muito apreciado.

Não se comemora a Alemanha nazista – não publicamente, claro, o que se faz em porões e não chega a nosso conhecimento a gente não pode olhar feio – porque os resultados dela não foram esquecidos. Os horrores que causou superam qualquer argumento a fim de amenizar a coisa. Porque não, Amado Batista, os fins não justificam os meios. Não mais.

Porque tem duzentos mil documentários mostrando os horrores feitos, porque os livros de História nos servem – ou deviam servir – de exemplo, porque conservam os campos de extermínio a fim de documentação da maldade humana cega, porque o Brad Pitt faz um judeu simpático no filme do Tarantino, porque a humanidade é também cruel e deve ser lembrada de sua própria crueldade, porque a informação que nos chega é que houve punição pra alguns (não todos, os EUA deram asilo político a muitos médicos a fim de acesso a suas pesquisas, não nos iludamos achando que tudo é preto no branco e que de repente brotou uma bondade desinteressada nos líderes mundiais).

Mas aqui é Brasil. E no Brasil, diferente do Chile ou Argentina, que tiveram ditaduras tão ou mais sangrentas que a nossa paralelamente, deixamos quieto as coisas. Silenciamos. Ignoramos. Deixamos crimes contra a humanidade – esses sim atos de terror – passar em branco e preferimos tacar pedra no Fidel, amaldiçoar chineses – desde que eles não parem de fabricar nossos eletrodomésticos com mão-de-obra escrava, claro – e palpitar sobre tudo. Vamos esquecer nossos podres, porque a grama do vizinho é mais verde, e nós continuamos adubando a nossa com legítimo esterco ideológico pátrio. Talvez por isso nossa grama não é tão boa: nem pra cocô de qualidade nos garantimos. “Húmus made in Brazil com baixo teor de informação – não causa grandes teses, mas também não causa grandes efeitos colaterais”. Salvo isso aí que agora brota como gremlins molhados (parece fofo mas tem potencial de criar monstros).

E então vemos um presidenciável chamando golpe de revolução, aceitamos o silêncio dizer muito enquanto cúmplice de absurdos, e deixamos lideranças arraigadas de preconceitos indignos e antidemocráticos perpetuarem. Em nome do poder pelo poder e de manutenção de já nem se sabe exatamente o que. Damos voz e alto-falante pra felicianos, malafaias e bolsonaros a troco de visitas na página do jornal. Ecoamos senso comum simplista e permitimos a maioria oprimir minorias justificando por “liberdade de opinião e democracia”, quando numa democracia real as minorias também têm direitos, mas se não convém à Marina e sua fé particular, ela sobe no muro. Defender árvore é mais fácil, claro. Pra quê defender gente se essa gente devia ter queimado no enxofre em Sodoma e Gomorra?

Só que felicianos e malafaias não surgem do nada. Amados batistas têm aos cântaros por aí. E começam a aparecer. Estamos molhando os gremlins! Estamos sim dando espaço legítimo e afogando o debate crítico e qualificado – que sequer garantimos ter havido algum dia – a troco de conteúdo fácil. Os bons têm falado, claro, como sempre falaram. Mas a voz deles têm ficado segregadas a troco de polêmicas que mais servem pra reafirmar preconceitos.

Por concessão pública deixamos ratinhos, a sujeita do jornal do SBT, anasmariasbragas e datenas entrarem em nossas casas e falarem pra gente. Assinamos Veja pros filhos passarem no vestibular e ensinamos a eles que se deve torcer o nariz pra pretos e pobres e chamarmos tudo o que não entendemos muito bem de “assistencialismo”. Deixamos o debate presidencial se resumir a aborto.

E principalmente e mais grave: deixamos a história de lado e não aprendemos nada com ela.